A importância de se estudar tal “personagem” é sobre uma percepção que precisa ser interpretada por sua parte na dualidade de poder e dissimulação persuasiva de ser o contrário.
O Diabo em Diferentes Religiões
Judaísmo
No judaísmo dominante, não existe um conceito de Diabo, como existe no cristianismo e no islamismo. As únicas referências claras a Satanás no Antigo Testamento estão nos livros de Zacarias[18] e de Jó.[19]
A maioria dos judeus não acredita na existência de uma figura omnimalevolente sobrenatural. [20]. A palavra hebraica שטן “Shatán” significa literalmente “Opositor/ Evitador/ Impossibilitador”. Inibir quer dizer, tentar impedir alguém de realizar algo. Tradicionalistas e filósofos no judaísmo medieval aderiram à teologia racional, rejeitando qualquer crença em anjos rebeldes ou caídos e visando o mal como abstrato.[21] Os rabinos judeus geralmente interpretaram a palavra satanás como é usado no Tanakh como se referindo estritamente a um adversário humano[22] e rejeitaram todos os escritos apócrifos enoquianos que mencionam השטן Ha-Shatãn (Satanás) como uma figura literal e celestial traidora, fazendo todas as tentativas para erradicá-los e destruir tais livros.[23] No entanto, a palavra Satanás ocasionalmente foi aplicada metaforicamente a influências do mal, por rabinos [24], como a exegese judaica do yetzer ha-rá (“inclinação do mal”) mencionada em Gênesis 6: 5.[25] A erudição rabínica no Livro de Jó geralmente segue o Talmud e Maimonides ao identificar “o satanás” do prólogo como uma metáfora para o yetzer ha-rá e não como uma entidade real.[26] No entanto, de acordo com uma contraditória narração, o som do shofar, que destina-se principalmente a lembrar os judeus da importância da teshuvá, também se destina simbolicamente a “confundir o acusador” (Satanás) e impedi-lo de fazer qualquer litígio a Deus contra os judeus.[27]
Cada ramo do judaísmo tem sua própria interpretação da identidade de Satanás. O judaísmo conservador geralmente rejeita a interpretação talmúdica de Satanás como uma metáfora para o yetzer ha-rá e o considera como um agente literal de Deus, um anjo que opera o mau porém controlado por Deus.[28] O judaísmo ortodoxo, por outro lado, abraça abertamente os ensinamentos talmúdicos sobre Satanás ( enxergando como apenas uma metafóra para “inclinação para o mal”) e envolve Satanás na vida religiosa de forma mais inclusiva do que outros ramos, mas como uma natureza, não uma entidade. Satanás é mencionado explicitamente em algumas orações diárias, inclusive durante Shacharit e certas bênçãos pós-refeição, conforme descrito no Talmud,[29] e no Código de Direito Judaico,[30] no sentido de “afastar a inclinação para o mal”. No judaísmo reformista, Satanás geralmente é visto em seu papel talmúdico como uma metáfora para o yetzer ha-rá e a representação simbólica de qualidades humanas inatas, como o egoísmo.
O Diabo no Judaísmo é um tema de muita reflexão. Por seu lado, tal religião era rigidamente monoteísta e não poderia permitir em seu seio a presença de entidades satânicas que existissem à revelia da vontade divina. O Judaísmo, porém, não era imune a estas ideias e foi fortemente influenciado por elas ainda no período do segundo Templo (entre 530 a.C. e 70 d.C.), quando se escreveram alguns dos livros canônicos, que tratam da existência do Mal. Não havendo na tradição judaica espaço para estas entidades e sendo para eles o dualismo a negação do monoteísmo puro, há forte oposição no seio dos escribas e sábios judeus para aceitar tais crenças. Elas sobreviveram disfarçadas em rituais e cerimônias tradicionais, enrustidas em explicações eruditas e “traduzidas” pelo povo em crenças populares de cunho místico.[31]